O hospital passou na auditoria. Mas passaria amanhã, sem aviso?
SÉRIE — ACREDITAÇÃO SOB PROVA - Artigo 1 de 4
Autor: Henrique Klein NetoA acreditação hospitalar precisa responder a uma pergunta que o certificado, sozinho, não responde: o padrão foi alcançado ou realmente foi sustentado?
Um hospital passa por uma avaliação, demonstra atendimento aos critérios estabelecidos e recebe um certificado.
Até aqui, nenhuma controvérsia.
A controvérsia começa na frase seguinte:
o que exatamente esse certificado nos autoriza a concluir sobre os meses e anos que virão depois da avaliação?
Que o hospital atingiu determinado padrão?
Ou que possui capacidade comprovada para manter esse padrão de maneira estável?
Essas afirmações parecem semelhantes.
Não são.
Essa diferença deveria estar no centro da próxima evolução da acreditação hospitalar brasileira.
A própria Organização Nacional de Acreditação declara que sua missão é aprimorar gestão, qualidade e segurança da assistência e apresenta sua Jornada da Acreditação como um modelo contínuo de desenvolvimento da qualidade e da segurança. Atualmente há 1.791 organizações acreditadas em 25 unidades da Federação, incluindo 508 serviços hospitalares. Portanto, estamos discutindo um sistema com relevância concreta para a saúde brasileira. ONA
O objetivo deste artigo não é diminuir esse legado.
É perguntar se o modelo de avaliação evoluiu suficientemente para demonstrar aquilo que a palavra contínua pressupõe.
1. Atingir conformidade não é demonstrar sustentabilidade
Essa é a primeira tese.
Uma avaliação pode demonstrar que determinada condição existe.
Sustentabilidade exige demonstrar que essa condição permanece.
Em ciência da qualidade, um ponto não define um processo.
Precisamos conhecer sua distribuição, tendência, variabilidade, recorrência, estabilidade e resposta aos desvios.
Um hospital pode apresentar excelente aderência a determinado processo no mês da avaliação e desempenho substancialmente diferente nos seis meses anteriores ou subsequentes.
As duas informações não possuem o mesmo valor inferencial.
A primeira responde:
“Como estava o processo quando observamos?”
A segunda começa a responder:
“Que processo essa organização efetivamente possui?”
Isso não é preciosismo acadêmico.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 examinou especificamente a sustentabilidade dos ganhos associados à acreditação hospitalar. Encontrou benefícios em segurança, desempenho organizacional e qualidade, mas mostrou que a magnitude e a manutenção desses ganhos variam entre contextos e dependem de fatores como governança, capacidade da força de trabalho, recursos e suporte sistêmico. Springer Nature
Uma ampla revisão de revisões também concluiu que, apesar das associações favoráveis encontradas, permanecem lacunas relevantes sobre como e por que a acreditação efetivamente produz melhoria. OUP Academic
Portanto, perguntar sobre sustentabilidade não é ser contrário à acreditação.
É estar alinhado à fronteira científica do próprio tema.
2. A primeira acreditação deveria comprovar alcance. A acreditação definitiva deveria exigir permanência.
Aqui proponho uma mudança importante.
A primeira acreditação deveria possuir uma condição de consolidação ou caráter provisório.
Não porque o hospital seja presumidamente inseguro.
Mas porque existe uma limitação lógica incontornável:
não se demonstra longitudinalidade em um único momento.
A primeira avaliação poderia legitimamente afirmar:
“Esta organização demonstrou ter alcançado o padrão.”
Depois de 12, 18 ou 24 meses de acompanhamento longitudinal, outra afirmação se tornaria possível:
“Esta organização demonstrou capacidade de sustentar o padrão.”
Isso tornaria o significado do certificado mais preciso.
Hoje, a ONA já diferencia maturidade por níveis. Para o nível Acreditado, informa atendimento de pelo menos 80% dos requisitos totais e 90% dos requisitos CORE; níveis superiores acrescentam critérios de gestão integrada e excelência. ONA
O que proponho não é simplesmente criar outro nível.
É criar outra dimensão.
3. Maturidade e sustentabilidade não são a mesma variável
Um hospital pode possuir elevado grau de sofisticação gerencial e estar naquele estágio há poucos meses.
Outro pode possuir o mesmo nível formal e demonstrar estabilidade durante oito anos, atravessando troca de direção, mudança de contratos, crises epidemiológicas, rotatividade de profissionais, restrições financeiras e aumento da demanda.
Esses hospitais apresentam a mesma maturidade classificatória.
Mas não apresentam a mesma evidência histórica de confiabilidade.
Por isso, a acreditação poderia operar em dois eixos:
maturidade organizacional × sustentabilidade comprovada.
O tempo em conformidade precisa adquirir valor.
A ausência de reincidências precisa adquirir valor.
A capacidade de atravessar mudanças mantendo padrões precisa adquirir valor.
O hospital que faz certo durante anos deveria possuir um ativo reputacional maior que aquele que acabou de demonstrar conformidade pela primeira vez.
Isso não enfraqueceria a acreditação.
Valorizaria exatamente as organizações que incorporaram seus princípios à rotina.
4. A recertificação deveria testar uma afirmação mais difícil que a primeira certificação
Há uma consequência lógica.
Na primeira avaliação, a organização afirma:
“Nós alcançamos.”
Na recertificação, afirma algo adicional:
“Nós mantivemos.”
Logo, do ponto de vista epistemológico, a recertificação deveria exigir não apenas uma nova fotografia, mas evidências retrospectivas da permanência do estado acreditado.
Curiosamente, grandes modelos internacionais estão desenvolvendo mecanismos nessa direção.
A JCI mantém avaliação trienal, mas seu modelo JCI Continuous introduziu cinco touchpoints entre os surveys, orientados por especialistas, achados anteriores e áreas de maior risco, explicitamente para ajudar a evitar deterioração entre ciclos. Joint Commission International
A DNV utiliza outra estratégia: seu modelo NIAHO para hospitais trabalha com surveys anuais dentro do ciclo de acreditação e afirma que a frequência busca manter o hospital preparado e operando em alto desempenho durante o ano. O modelo internacional DIAS também é estruturado em avaliações anuais e integrado a princípios da ISO 9001. DNV
A Accreditation Canada foi ainda mais explícita: o Qmentum Global afirma estar se afastando do tradicional modelo de preparação “big bang”, distribuindo atividades durante o ciclo e utilizando avaliações com aviso curto, atestações, planos de melhoria e mecanismos de acompanhamento. Acreditação Canadense
Não há razão para copiar cegamente nenhum deles.
Mas existe uma direção metodológica relevante:
reduzir a diferença entre conquistar a acreditação e viver permanentemente como uma organização acreditada.
A pergunta final deste primeiro artigo é simples
Se um hospital alcançou o padrão em outubro, qual evidência deveria ser necessária para afirmar, em outubro do ano seguinte, que ele continua sendo a mesma organização?
Uma nova visita?
Algumas amostras?
Ou uma combinação de avaliações com 365 dias de evidências longitudinais?
Porque talvez o maior risco metodológico da acreditação não seja certificar deliberadamente um hospital inadequado.
É algo mais sutil:
transformar uma condição observada em determinado momento em uma conclusão sobre permanência sem evidência temporal suficiente para sustentá-la.
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Autor: Henrique Klein — CEO e Fundador da Elroi Tecnologia Hospitalar, Fundador e Diretor de Inovação da Biont Biotecnologia, além de Inventor e Pesquisador Independente em Tecnologias para a Saúde. Todos os direitos reservados.




