Quando o hospital não consegue sustentar o requisito da acreditação, quem precisa mudar: o hospital ou o modelo
SÉRIE — ACREDITAÇÃO SOB PROVA - Artigo 3 de 4
Autor: Henrique Klein NetoONA 2026, requisitos CORE, limpeza hospitalar, capacidade de implementação e o papel de uma rede nacional de avaliadores
Uma acreditadora séria precisa ser exigente.
Mas existe uma diferença entre estabelecer um padrão de segurança e simplesmente aumentar a quantidade de exigências.
O primeiro melhora o sistema.
O segundo pode produzir burocracia sem garantia proporcional de resultado.
E é aqui que a discussão sobre o Manual ONA 2026 precisa atingir um nível mais sofisticado.
A pergunta não pode ser:
“O requisito é importante?”
Muitos são.
A pergunta seguinte precisa ser:
“O sistema consegue implementar, mensurar e sustentar esse requisito na rotina real?”
9. Requisitos CORE precisam ser analisados também pela criticidade da falha
A metodologia ONA informa atualmente que, no nível Acreditado, a organização deve alcançar pelo menos 80% dos requisitos totais e 90% dos CORE. ONA
Essa arquitetura possui racionalidade.
Nenhum sistema complexo deveria ser tratado como se qualquer pequena imperfeição tivesse exatamente o mesmo peso.
Mas ela abre uma discussão importante:
todos os requisitos CORE deveriam ser matematicamente compensáveis?
Imagine uma instituição que apresenta desempenho excepcional em grande parte do sistema, mas possui uma lacuna persistente justamente numa barreira de elevado potencial de dano.
A média continua sendo a melhor forma de representar segurança?
Talvez alguns requisitos precisem ser classificados não apenas como CORE, mas também pela consequência de sua ausência:
compensável;
condicional;
não compensável;
ou gatilho automático de avaliação adicional.
Não estou propondo 100% indiscriminadamente.
Estou propondo proporcionalidade baseada em risco.
Em sistemas complexos, uma média excelente pode coexistir com uma vulnerabilidade crítica.
10. O Manual precisa distinguir requisito difícil de requisito operacionalmente inexequível
Acredito que o exemplo da limpeza hospitalar seja extremamente didático.
O novo modelo exige cada vez mais evidência de que os processos não apenas estão formalizados, mas efetivamente são executados e monitorados.
Conceitualmente, isso é correto.
Em limpeza hospitalar, dizer:
“nosso protocolo determina limpeza concorrente nesta frequência”
não prova que ela ocorreu.
Uma fotografia também não demonstra cobertura.
Três checklists não demonstram milhares de execuções mensais.
Para comprovar sistematicamente a execução, a pergunta precisa chegar progressivamente a:
quem executou;
onde;
quando;
qual atividade;
qual frequência esperada;
qual frequência realizada;
qual atraso;
qual vencimento;
qual inspeção;
qual não conformidade;
qual correção.
Aqui surge uma questão prática importante.
Quantos hospitais conseguem produzir essa profundidade de evidência de maneira contínua e não apenas próximo da avaliação?
Na minha experiência profissional, encontro instituições com dificuldades reais para produzir rastreabilidade longitudinal desse tipo em processos de grande volume.
Essa é uma observação de campo, não uma estimativa nacional.
E exatamente por isso falta uma informação fundamental:
qual é a prevalência real dessa dificuldade entre organizações acreditadas?
Se o problema for frequente, três hipóteses precisam ser estudadas.
Talvez o setor esteja abaixo do padrão necessário.
Talvez o requisito seja correto, mas a infraestrutura necessária ainda não esteja difundida.
Talvez a forma de comprovação ou sua interpretação precise ser melhor calibrada.
Não podemos escolher a explicação por opinião.
Precisamos de dados.
A ciência recente da acreditação ajuda a entender por que isso importa: a revisão sistemática de 2026 encontrou que a sustentabilidade depende significativamente de governança, recursos, força de trabalho e capacidade de implementação. Springer Nature
Portanto, falha de sustentação não é automaticamente sinônimo de falta de compromisso.
Pode revelar problemas estruturais que a própria metodologia deveria aprender a reconhecer.
11. Uma acreditadora não deveria apenas escrever regras. Deveria produzir ciência de implementação.
A ONA já possui atividade educacional relevante.
Seu ONA Educare oferece formação e atualização, e os cursos de 2026 trabalham interpretação técnica, aplicação prática dos requisitos, evidências esperadas e evolução da jornada do paciente. ONA
Portanto, seria incorreto afirmar que a ONA apenas “cria regras”.
Minha proposta vai além.
A ONA deveria transformar dificuldades recorrentes das organizações em uma escola nacional de sustentação da conformidade.
Não para ensinar como passar na auditoria.
Isso seria exatamente o contrário do que defendemos.
Mas para estudar cientificamente:
como sustentar requisitos com alta rotatividade;
como manter conformidade durante superlotação;
como enfrentar perda de profissionais;
como administrar terceirizações;
como preservar barreiras de segurança sob restrição financeira;
como medir processos de milhares de eventos;
quando tecnologia é indispensável;
quando a exigência documental não acrescenta segurança;
quais soluções permanecem eficazes anos depois da implementação.
Isso seria profundamente coerente com a própria origem da acreditação brasileira. A Portaria MS nº 1.970/2001 descrevia historicamente a acreditação hospitalar como instrumento de melhoria contínua e de educação permanente dos profissionais. Biblioteca Virtual em Saúde MS
A questão não é ensinar hospitais a obedecer.
É produzir conhecimento sobre como tornar a qualidade sustentável no hospital real.
12. A rede de avaliadores deveria ser pensada como infraestrutura permanente de assurance
A ONA informa possuir mais de 800 profissionais aptos em sua metodologia. Apenas na preparação para o novo Manual OPSS 2026, 450 avaliadores participaram de um programa específico de desenvolvimento. ONA
Isso é um patrimônio técnico extraordinário.
A pergunta estratégica é:
qual a melhor forma de utilizar essa capacidade?
Grandes avaliações periódicas?
Ou uma arquitetura distribuída?
Imagine avaliadores realizando intervenções menores durante o ciclo:
uma análise remota de indicadores;
um tracer focal;
uma amostra retrospectiva;
uma visita de poucas horas;
um acompanhamento de não conformidade crítica;
uma avaliação surpresa baseada em risco.
Não se trata de colocar auditores permanentemente dentro do hospital.
Trata-se de transformar uma rede episódica em uma rede de assurance longitudinal.
É exatamente aqui que as experiências internacionais voltam a ser relevantes.
A JCI criou cinco contatos estruturados entre os grandes surveys. Joint Commission International
A DNV avalia hospitais anualmente para estimular prontidão permanente. DNV
A Accreditation Canada distribuiu requisitos e atividades ao longo do ciclo e utiliza avaliações com aviso curto, declarando explicitamente que deseja superar o modelo de preparação “big bang”. Acreditação Canadense
E existe uma lição adicional interessante da JCI: ela oferece serviços educacionais e consultivos, mas declara explicitamente que sua utilização não é necessária para obter acreditação nem influencia a concessão do certificado. Joint Commission
Essa separação é fundamental.
Educação pode ser intensa.
Independência decisória precisa continuar intacta.
Não precisamos escolher entre uma acreditadora exigente e uma acreditadora educadora.
Precisamos das duas funções, com barreiras claras entre ensinar e julgar.
No quarto e último artigo, chegamos ao ponto jurídico e institucional:
quem concede confiança pública precisa também aceitar transparência, questionamento e escrutínio sobre o próprio modelo.
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Autor: Henrique Klein — CEO e Fundador da Elroi Tecnologia Hospitalar, Fundador e Diretor de Inovação da Biont Biotecnologia, além de Inventor e Pesquisador Independente em Tecnologias para a Saúde. Todos os direitos reservados.




