O que estudos recentes revelam sobre Candida auris, limpeza hospitalar, desinfecção, biofilme, sobrevivência em superfícies e frequência da limpeza
Tenho acompanhado os estudos mais recentes sobre Candida auris, limpeza hospitalar e desinfecção de superfícies.
E uma questão começou a me chamar atenção.
Quando falamos em Candida auris, discutimos corretamente qual desinfetante utilizar, qual concentração, qual tempo de contato, como realizar a limpeza concorrente e terminal, como descontaminar equipamentos compartilhados e como controlar um surto.
Todas são perguntas fundamentais.
Mas estudos recentes acrescentam uma variável especialmente importante:
o tempo.
Porque a desinfecção acontece em determinado momento.
A assistência não.
Pacientes, profissionais, equipamentos e superfícies continuam interagindo no ambiente assistencial e, quando existe um paciente colonizado, novas oportunidades de contaminação ambiental continuam existindo.
Foi então que comecei a fazer uma pergunta diferente:
O que acontece entre uma desinfecção de Candida auris e a próxima?
O que é Candida auris e por que ela preocupa os hospitais?
Candida auris, atualmente também denominada Candidozyma auris na taxonomia micológica, é uma levedura emergente associada principalmente aos serviços de saúde.
Sua relevância está relacionada a uma combinação de características:
- resistência a diferentes antifúngicos;
- capacidade de causar infecções invasivas;
- colonização de pacientes;
- persistência ambiental;
- contaminação de superfícies e equipamentos;
- formação de biofilmes;
- dificuldade de descolonização;
- capacidade de provocar surtos de difícil controle.
Para CCIH, SCIH, prevenção de IRAS, Hotelaria Hospitalar e equipes de higienização, uma característica merece atenção especial:
Candida auris consegue persistir no ambiente hospitalar.
Isso torna a limpeza e desinfecção de superfícies hospitalares componentes importantes das estratégias de prevenção e controle.
Mas os estudos recentes mostram que o problema é mais complexo do que simplesmente escolher um desinfetante.
Qual desinfetante elimina Candida auris?
Em 2025, María Guadalupe Frías-De-León, Paola Betancourt-Cisneros, Erick Martínez-Herrera, Paola Berenice Zarate-Segura, Carlos Alberto Castro-Fuentes e Eduardo García-Salazar publicaram uma revisão sistemática sobre desinfecção ambiental e descolonização de Candida auris.
O estudo
Título: Current Overview of Environmental Disinfection and Decolonization of C. auris: A Systematic Review from 2020 to 2025.
Autores: María Guadalupe Frías-De-León; Paola Betancourt-Cisneros; Erick Martínez-Herrera; Paola Berenice Zarate-Segura; Carlos Alberto Castro-Fuentes; Eduardo García-Salazar.
Periódico: Tropical Medicine and Infectious Disease. 2025;10(6):155.
DOI: 10.3390/tropicalmed10060155
Artigo completo:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12197617/
Publicação original:
https://www.mdpi.com/2414-6366/10/6/155
O que os pesquisadores estudaram?
A revisão reuniu:
52 estudos científicos.
Destes, 40 investigaram exclusivamente desinfecção ambiental, 11 descolonização e 1 avaliou as duas estratégias.
Na avaliação metodológica, 35 estudos foram classificados como de alta qualidade e 17 como de qualidade moderada.
O que encontraram?
A principal mensagem é que não existe uma resposta simples para:
“Qual produto elimina Candida auris?”
A eficácia varia conforme diferentes condições, entre elas concentração e tempo de exposição.
O que isso significa na prática?
A pergunta mais adequada passa a ser:
Qual produto, em qual concentração, durante qual tempo de contato e em quais condições consegue produzir determinada redução de Candida auris?
Tempo de contato é o período durante o qual o desinfetante precisa permanecer adequadamente aplicado à superfície para produzir o efeito esperado.
Portanto, princípio ativo, concentração, tempo de contato e condições de aplicação precisam ser analisados em conjunto.
A descolonização do paciente resolve o problema?
Não necessariamente.
A revisão dos 52 estudos concluiu que a descolonização do paciente continua sendo um desafio.
Se o paciente permanece colonizado, uma potencial fonte de dispersão pode continuar presente mesmo depois de uma desinfecção ambiental adequadamente executada.
Podemos ter:
paciente colonizado → contaminação de superfícies → limpeza e desinfecção → redução da carga microbiana → continuidade da assistência → nova exposição ambiental → nova intervenção
A desinfecção deixa de parecer um ponto final.
Ela passa a fazer parte de um ciclo.
Candida auris forma biofilme?
Sim.
Biofilme é, de forma simples, uma comunidade de microrganismos aderida a uma superfície e organizada em uma estrutura que pode favorecer sua persistência e dificultar a ação de determinados processos de desinfecção.
Em 2026, Aristotelis Papadimitriou, Lida-Paraskevi Drosopoulou, Maria Tseroni, Flora V. Kontopidou, Athanasios Tsakris e Georgia Vrioni publicaram uma revisão sistemática sobre descontaminação ambiental de Candida auris.
O estudo
Título: Breaking the Chain of Infection: A Systematic Review of Environmental Decontamination of Candidozyma auris (2017–2025).
Autores: Aristotelis Papadimitriou; Lida-Paraskevi Drosopoulou; Maria Tseroni; Flora V. Kontopidou; Athanasios Tsakris; Georgia Vrioni.
Periódico: Journal of Fungi. 2026;12(2):131.
DOI: 10.3390/jof12020131
Artigo completo:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12941790/
Publicação original:
https://www.mdpi.com/2309-608X/12/2/131
O que encontraram?
Foram analisados:
36 estudos de nove países.
Agentes à base de cloro e determinadas formulações oxidantes apresentaram resultados particularmente consistentes nas condições adequadas dos estudos.
Mas outro resultado merece atenção:
apenas 7 dos 36 estudos avaliaram Candida auris associada a biofilmes.
Grande parte da evidência sobre desinfecção, portanto, ainda não foi produzida utilizando Candida auris organizada em biofilme.
Isso importa porque:
não basta saber qual microrganismo está na superfície. Também precisamos considerar como ele está organizado.
Biofilme pode dificultar a desinfecção de Candida auris?
Um estudo de 2025 ajuda a responder essa pergunta.
Alicia Ware, William Johnston, Christopher Delaney, Mark C. Butcher, Gordon Ramage, Lesley Price, John Butcher e Ryan Kean estudaram especificamente biofilmes secos de Candida auris.
O estudo
Título: Dry Surface Biofilm Formation by Candida auris Facilitates Persistence and Tolerance to Sodium Hypochlorite.
Autores: Alicia Ware; William Johnston; Christopher Delaney; Mark C. Butcher; Gordon Ramage; Lesley Price; John Butcher; Ryan Kean.
Periódico: APMIS. 2025;133(4):e70022.
DOI: 10.1111/apm.70022
Artigo completo:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11975465/
PubMed:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40194790/
O que os pesquisadores fizeram?
Os pesquisadores desenvolveram um modelo de biofilme de superfície seca durante 12 dias, com ciclos de hidratação e dessecação, e compararam sua resposta ao hipoclorito de sódio com células planctônicas.
Células planctônicas são células livres, ainda não organizadas na estrutura de um biofilme.
O que encontraram?
Nas condições avaliadas, os biofilmes secos apresentaram aproximadamente:
2–4 LOG10 de redução de células viáveis.
Isso mostra que Candida auris organizada em biofilme seco pode responder de maneira diferente à desinfecção quando comparada às células planctônicas.
O que o estudo NÃO significa?
Não significa:
“hipoclorito não funciona contra Candida auris”.
Agentes à base de cloro apresentam eficácia contra Candida auris em diferentes estudos quando utilizados nas condições apropriadas.
O resultado mostra que o estado microbiológico pode modificar a suscetibilidade à desinfecção.
Afinal, o que significa redução LOG?
LOG representa quanto a quantidade de microrganismos viáveis diminuiu depois de uma intervenção.
Imagine uma população inicial hipotética de:
1.000.000 UFC
Depois da desinfecção:
1 LOG → 100.000 UFC = 90% de redução
2 LOG → 10.000 UFC = 99%
3 LOG → 1.000 UFC = 99,9%
4 LOG → 100 UFC = 99,99%
5 LOG → 10 UFC = 99,999%
UFC significa Unidade Formadora de Colônia, uma medida utilizada para estimar microrganismos viáveis.
A redução LOG responde principalmente:
Quanto conseguimos reduzir?
Mas existe outra pergunta:
O que acontece depois da desinfecção?
Candida auris pode aderir a uma superfície em 15 minutos?
Em 2026, L. Brown, E. Fraser, G. Martinez-Garcia e J. Clarke publicaram no Journal of Hospital Infection um estudo sobre biofilmes de Candidozyma auris em superfícies.
O estudo
Título: Investigating strategies for control of Candidozyma auris biofilms on surfaces.
Autores: L. Brown; E. Fraser; G. Martinez-Garcia; J. Clarke.
Periódico: Journal of Hospital Infection. 2026;170:218–225.
DOI: 10.1016/j.jhin.2026.01.025
PubMed:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41692222/
Artigo original:
https://doi.org/10.1016/j.jhin.2026.01.025
O que encontraram?
Foram avaliados três isolados de Candida auris em superfícies plásticas não porosas.
Os pesquisadores observaram:
“initial attachment to surfaces within 15 min.”
Tradução: “adesão inicial às superfícies em até 15 minutos”.
Nas condições experimentais avaliadas, portanto, o processo inicial de adesão de Candida auris à superfície pôde começar rapidamente.
O que isso NÃO significa?
Não significa que um biofilme maduro se forma em 15 minutos.
O estudo demonstrou adesão inicial.
Essa diferença é fundamental.
Quanto tempo Candida auris sobrevive em superfícies?
O mesmo estudo encontrou outro resultado relevante:
“persistence of viable cells on dry surfaces up to 28 days”
Tradução: “persistência de células viáveis em superfícies secas por até 28 dias”.
Nas condições experimentais estudadas, Candida auris apresentou potencial de persistência prolongada em superfície seca.
Isso não significa que toda superfície contaminada permanecerá positiva durante exatamente 28 dias.
28 dias demonstram potencial de persistência prolongada. Não estabelecem um prazo universal de sobrevivência.
E a frequência da limpeza?
Aqui aparece um ponto particularmente interessante.
No mesmo estudo, Brown, Fraser, Martinez-Garcia e Clarke destacam a importância da:
“frequency of cleaning during C. auris outbreaks”
Tradução: “frequência da limpeza durante surtos de C. auris”.
Isso cria uma conexão importante:
persistência → tempo → frequência da limpeza.
O estudo, entretanto, não estabelece que a limpeza deva ocorrer a cada duas, quatro ou seis horas.
Ele chama atenção para a importância da frequência dentro da estratégia de descontaminação ambiental.
Transparência científica: quem realizou esse estudo?
Brown, Fraser, Martinez-Garcia e Clarke são funcionários da GAMA Healthcare Ltd, fabricante de produtos desinfetantes, incluindo produto avaliado no estudo.
Essa relação foi declarada pelos autores.
Isso não invalida automaticamente os resultados, mas é relevante para que o estudo seja interpretado juntamente com pesquisas independentes e revisões sistemáticas.
Ciência forte não depende de um único artigo. Depende da convergência das evidências.
O que a ANVISA orienta sobre limpeza e desinfecção de Candida auris?
No Brasil, uma referência sanitária central é a Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA nº 02/2022, atualizada em 12 de dezembro de 2024, com orientações para identificação, prevenção e controle de infecções por Candida auris em serviços de saúde.
A orientação brasileira reforça a importância da limpeza e desinfecção ambiental, incluindo superfícies, equipamentos e ambiente assistencial, dentro das medidas de prevenção e controle.
Para CCIH e SCIH, as orientações vigentes da ANVISA devem integrar a definição e atualização dos protocolos institucionais.
Com que frequência deve ser feita a limpeza de Candida auris?
Não existe, na literatura científica, um intervalo microbiológico universal que permita afirmar:
“Candida auris exige limpeza a cada X horas em qualquer hospital.”
Isso não significa que a frequência seja irrelevante.
O estudo de Brown e colaboradores chama atenção especificamente para a frequência da limpeza durante surtos, enquanto autoridades sanitárias orientam rotinas rigorosas de limpeza e desinfecção ambiental.
A frequência precisa considerar:
- orientação sanitária vigente;
- protocolo institucional;
- criticidade do ambiente;
- frequência de toque;
- presença de paciente colonizado ou infectado;
- situação epidemiológica;
- ocorrência de surto;
- equipamentos compartilhados;
- avaliação da CCIH/SCIH.
A conclusão mais segura é:
não existe uma frequência microbiológica universal, mas existe necessidade de estabelecer e cumprir uma frequência de limpeza compatível com o risco.
O que o CDC recomenda para limpeza de Candida auris?
O Centers for Disease Control and Prevention — CDC mantém orientação específica para o controle de Candida auris em serviços de saúde.
Documento: Infection Control Guidance: Candida auris.
Fonte oficial:
https://www.cdc.gov/candida-auris/hcp/infection-control/index.html
O CDC orienta limpeza e desinfecção cuidadosas dos quartos pelo menos diariamente e também na alta ou transferência do paciente, além da limpeza e desinfecção dos equipamentos reutilizáveis.
Também chama atenção para superfícies de alto toque, como grades do leito e mesas próximas ao paciente.
Produtos baseados exclusivamente em quaternários de amônio não são considerados eficazes contra Candida auris pelo CDC.
Isso evidencia três dimensões:
produto + técnica + frequência.
Existem dois “tempos” diferentes na desinfecção
Essa diferença é simples, mas fundamental.
1. Tempo de contato
Por quanto tempo o produto precisa permanecer na superfície para produzir o efeito esperado?
2. Intervalo entre intervenções
Quanto tempo passa entre uma limpeza/desinfecção e a próxima?
Portanto:
tempo de contato ≠ intervalo entre limpezas.
Um produto pode ter sido utilizado corretamente durante seu tempo de contato e ainda existir outra pergunta:
Quando a próxima intervenção deveria acontecer?
O que acontece depois que a limpeza termina?
Imagine:
08:00 — desinfecção concluída.
Produto correto. Concentração correta. Tempo de contato correto. Técnica adequada.
Depois disso, pacientes, profissionais, mãos, equipamentos e superfícies voltam a interagir no ambiente assistencial.
Os estudos mostram que a adesão pode começar rapidamente e que a persistência ambiental pode ser prolongada.
Isso não significa que toda superfície seja imediatamente recontaminada.
Mas permite uma conclusão:
o período depois da desinfecção não deve ser considerado microbiologicamente estático.
Como uma superfície pode voltar a apresentar microrganismos?
Depois da desinfecção podem coexistir diferentes fenômenos:
- sobrevivência residual;
- morte natural;
- adesão e persistência;
- crescimento quando existirem condições;
- recrescimento de biofilmes;
- transferência pelas mãos e equipamentos;
- nova deposição;
- dispersão pelo paciente.
Por isso, considero útil pensar em uma:
Dinâmica Temporal de Recontaminação
Em linguagem simples:
a quantidade de microrganismos encontrada futuramente em uma superfície pode resultar tanto daqueles que permaneceram quanto daqueles que voltaram a chegar.
É aqui que entra a Cobertura Temporal Sanitária
Agora precisamos separar a evidência microbiológica de uma proposta de mensuração operacional.
Imagine que o protocolo institucional estabeleça determinada periodicidade:
08:00 — limpeza realizada
12:00 — próxima limpeza prevista
Mas a nova limpeza acontece somente:
14:00.
Se analisarmos apenas os eventos, temos duas limpezas realizadas.
Mas existe uma informação entre elas:
08:00–12:00 → dentro da periodicidade estabelecida
12:00–14:00 → fora da periodicidade estabelecida
Isso não significa que às 12h01 o ambiente ficou contaminado nem que Candida auris estava presente.
Significa objetivamente:
durante duas horas, o ambiente permaneceu fora da periodicidade de limpeza estabelecida pelo próprio hospital.
Foi para medir essa dimensão que comecei a trabalhar com o conceito de:
Cobertura Temporal Sanitária
Que proponho definir operacionalmente como:
a proporção do tempo em que determinado ambiente permanece dentro da periodicidade de limpeza ou desinfecção estabelecida para sua condição assistencial e de risco.
Os estudos de Candida auris comprovam a Cobertura Temporal Sanitária?
Não.
Os estudos apresentados neste artigo não validam a Cobertura Temporal Sanitária como indicador microbiológico.
Eles mostram que o tempo é uma variável relevante na dinâmica ambiental e na organização das estratégias de descontaminação.
A Cobertura Temporal Sanitária entra como uma proposta de mensuração operacional da aderência à periodicidade definida pelo hospital.
Ela responde:
Por quanto tempo o ambiente permaneceu dentro da periodicidade estabelecida?
Ela não demonstra ausência de Candida auris, esterilidade, quantidade de UFC, redução de IRAS ou segurança microbiológica.
Também não substitui cultura microbiológica, inspeção, protocolos, monitoramento ambiental quando indicado ou avaliação da CCIH/SCIH.
Por que 100% das limpezas realizadas pode não significar 100% de cobertura?
Imagine:
1.000 limpezas programadas.
1.000 limpezas realizadas.
Resultado:
100% de execução.
Mas ainda não sabemos quantas aconteceram dentro da periodicidade, quantas atrasaram, quanto tempo atrasaram ou quanto tempo acumulado os ambientes permaneceram fora da periodicidade.
Existe uma diferença matemática entre:
contar eventos
e
medir tempo.
O papel de um software de limpeza hospitalar
Digitalizar a limpeza hospitalar não deveria significar apenas trocar papel por tela.
Um software de limpeza hospitalar ou sistema de limpeza hospitalar pode reconstruir continuamente:
ambiente → criticidade → última limpeza → periodicidade → próxima limpeza → atraso → período descoberto → nova intervenção → nova cobertura.
Isso transforma registros isolados em uma:
linha temporal da limpeza hospitalar.
E acrescenta uma dimensão à gestão de limpeza hospitalar:
não apenas saber se a limpeza aconteceu, mas saber quando aconteceu, quanto atrasou e por quanto tempo o ambiente permaneceu dentro ou fora da periodicidade estabelecida.
O que podemos concluir sobre Candida auris, limpeza e desinfecção?
As evidências apresentadas permitem sustentar que:
- Candida auris possui importante capacidade de persistência ambiental;
- a eficácia da desinfecção depende do produto, concentração, tempo de contato e condições de aplicação;
- Candida auris organizada em biofilme pode responder de maneira diferente à desinfecção;
- biofilmes secos podem apresentar maior tolerância a determinados processos de desinfecção;
- a adesão inicial pode ocorrer rapidamente em determinadas condições experimentais;
- a persistência em superfícies secas pode ser prolongada;
- a descolonização do paciente continua sendo um desafio;
- a literatura específica sobre biofilmes ambientais ainda é limitada;
- a frequência da limpeza faz parte da estratégia de controle ambiental.
E existe uma conclusão igualmente importante:
as evidências atuais não estabelecem uma periodicidade universal de limpeza para Candida auris aplicável a todos os ambientes hospitalares.
A pergunta que a ciência ainda precisa responder melhor
Estamos cada vez melhores em responder:
Qual desinfetante utilizar? Qual concentração? Qual tempo de contato? Quanto conseguimos reduzir? Como Candida auris se comporta em biofilmes?
Mas ainda existe uma pergunta:
Como a carga ambiental evolui durante as horas que separam duas intervenções em um ambiente hospitalar real?
Uma hora. Duas horas. Quatro horas. Seis horas. Oito horas.
Provavelmente não existirá uma única curva aplicável a todos os ambientes.
Mas conhecê-la pode ajudar a transformar periodicidades historicamente estabelecidas em estratégias progressivamente mais orientadas por risco, microbiologia e evidência.
Perguntas frequentes sobre Candida auris e limpeza hospitalar
O que é Candida auris?
Candida auris é uma levedura emergente associada principalmente aos serviços de saúde. Pode colonizar pacientes, causar infecções invasivas, persistir no ambiente e apresentar resistência a diferentes antifúngicos.
Como Candida auris é transmitida?
Nos serviços de saúde, a disseminação pode envolver pacientes colonizados ou infectados, superfícies e equipamentos contaminados. Higiene das mãos, precauções e descontaminação ambiental fazem parte das estratégias de controle.
Quanto tempo Candida auris sobrevive em superfícies?
Não existe um período único aplicável a todas as situações. Um estudo de 2026 encontrou células viáveis em superfícies secas por até 28 dias em determinado modelo experimental. Isso demonstra potencial de persistência prolongada, mas não estabelece um prazo universal.
Candida auris forma biofilme?
Sim. Estudos demonstram capacidade de formação de biofilmes, e pesquisas recentes mostram que biofilmes secos podem responder à desinfecção de maneira diferente das células planctônicas.
Qual desinfetante elimina Candida auris?
A eficácia depende do produto, formulação, concentração, tempo de contato e condições de aplicação. Devem ser utilizados produtos e protocolos indicados pelas autoridades sanitárias aplicáveis.
Hipoclorito funciona contra Candida auris?
Agentes à base de cloro apresentam eficácia em diferentes estudos. Entretanto, concentração, tempo de contato e estado microbiológico influenciam o resultado.
Quaternário de amônio funciona contra Candida auris?
Produtos baseados exclusivamente em compostos quaternários de amônio não são recomendados pelo CDC para Candida auris. A indicação específica do produto e as recomendações sanitárias aplicáveis devem ser observadas.
UV-C funciona contra Candida auris?
Há evidências de atividade da UV-C contra Candida auris, mas sua eficácia depende de fatores como dose, distância, geometria e exposição. Tecnologias No Touch devem ser consideradas complementares à limpeza e desinfecção convencional.
Como deve ser feita a limpeza de um quarto com Candida auris?
A limpeza e desinfecção devem seguir as recomendações sanitárias vigentes, os protocolos institucionais e as orientações da CCIH/SCIH, com atenção às superfícies de alto toque e aos equipamentos compartilhados.
Como deve ser feita a limpeza terminal para Candida auris?
A limpeza terminal deve contemplar superfícies e equipamentos previstos no protocolo institucional e utilizar produtos apropriados, respeitando concentração, modo de aplicação e tempo de contato.
Existe uma frequência ideal de limpeza para Candida auris?
Não existe uma periodicidade microbiológica universal aplicável a todos os ambientes. A frequência deve considerar recomendações sanitárias, risco assistencial e epidemiológico, protocolo institucional e avaliação da CCIH/SCIH.
O que é Cobertura Temporal Sanitária?
É uma proposta de indicador operacional para medir:
a proporção do tempo em que determinado ambiente permanece dentro da periodicidade de limpeza ou desinfecção estabelecida para sua condição assistencial e de risco.
Não é um indicador microbiológico e não comprova ausência de Candida auris.
A limpeza termina. O ambiente continua.
Talvez essa seja a principal reflexão deixada pelos estudos recentes sobre Candida auris.
Durante muito tempo perguntamos:
A limpeza foi realizada?
Depois:
Foi realizada corretamente?
A microbiologia acrescentou:
Quanto conseguimos reduzir?
Os estudos sobre biofilmes:
Em qual estado estava o microrganismo?
Agora talvez precisemos acrescentar:
O que aconteceu depois?
Porque uma excelente desinfecção continua sendo fundamental, mas ela ocorre em determinado momento.
O ambiente hospitalar continua funcionando.
A assistência continua.
As superfícies continuam sendo tocadas.
Microrganismos podem permanecer ou voltar a chegar.
E o tempo continua correndo.
Por isso, depois de analisar as evidências mais recentes sobre Candida auris, fiquei com uma pergunta:
Entre duas desinfecções, por quanto tempo nossos ambientes realmente permaneceram dentro da estratégia de limpeza que nós mesmos estabelecemos?
Talvez compreender esse intervalo seja uma das próximas fronteiras da limpeza hospitalar baseada em dados.
Referências científicas e fontes originais
- FRÍAS-DE-LEÓN, María Guadalupe; BETANCOURT-CISNEROS, Paola; MARTÍNEZ-HERRERA, Erick; ZARATE-SEGURA, Paola Berenice; CASTRO-FUENTES, Carlos Alberto; GARCÍA-SALAZAR, Eduardo. Current Overview of Environmental Disinfection and Decolonization of C. auris: A Systematic Review from 2020 to 2025. Tropical Medicine and Infectious Disease. 2025;10(6):155. DOI: 10.3390/tropicalmed10060155.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12197617/ - PAPADIMITRIOU, Aristotelis; DROSOpoulou, Lida-Paraskevi; TSERONI, Maria; KONTOPIDOU, Flora V.; TSAKRIS, Athanasios; VRIONI, Georgia. Breaking the Chain of Infection: A Systematic Review of Environmental Decontamination of Candidozyma auris (2017–2025). Journal of Fungi. 2026;12(2):131. DOI: 10.3390/jof12020131.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12941790/ - WARE, Alicia; JOHNSTON, William; DELANEY, Christopher; BUTCHER, Mark C.; RAMAGE, Gordon; PRICE, Lesley; BUTCHER, John; KEAN, Ryan. Dry Surface Biofilm Formation by Candida auris Facilitates Persistence and Tolerance to Sodium Hypochlorite. APMIS. 2025;133(4):e70022. DOI: 10.1111/apm.70022.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11975465/ - BROWN, L.; FRASER, E.; MARTINEZ-GARCIA, G.; CLARKE, J. Investigating strategies for control of Candidozyma auris biofilms on surfaces. Journal of Hospital Infection. 2026;170:218–225. DOI: 10.1016/j.jhin.2026.01.025.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41692222/ - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA — ANVISA. Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA nº 02/2022 — Orientações para identificação, prevenção e controle de infecções por Candida auris em serviços de saúde. Atualizada em 12/12/2024.
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/notas-tecnicas/notas-tecnicas-vigentes/nota-tecnica-gvims-02_2022-c-auris-revisao-2024-12-12-2024.pdf - CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION — CDC. Infection Control Guidance: Candida auris.
https://www.cdc.gov/candida-auris/hcp/infection-control/index.html



